CLIPPING - 11
CINEMA/ESTRÉIAS
"SEJA O QUE DEUS QUISER"
Diretor assume risco e despreza dogmas
Murilo Salles radicaliza clichês em comédia cruel
José Geraldo Couto
Colunista da Folha de S. Paulo
Cacá (Ludmila Rosa),
uma VJ da MTV, vai fazer uma reportagem de música numa favela
carioca e acaba na cama com o sambista PQD (Rocco Pitanga, filho de
Antonio e irmão de Camila). Atacada por desconhecidos, ela denuncia
o rapaz à polícia, por suspeitar de sua conivência
com os bandidos.
PQD foge para São Paulo à procura da moça para
limpar a própria barra. Por uma série de acasos, acaba
ficando à mercê de Nando (Caio Junqueira), o irmão
clubber de Cacá, que quer usar o músico para dar um golpe
e faturar muita grana.
Desse entrecho Murilo Salles construiu uma comédia de erros sobre
o choque de classes e culturas no Brasil de hoje, tema já presente,
num outro registro, em seu "Como Nascem os Anjos".
O filme tem causado perplexidade, se não mal-estar, em suas pré-estréias
e exibições especiais. Não é difícil
entender por quê.
"Seja o que Deus Quiser" realiza uma operação
de risco ao desprezar simultaneamente dois elementos que estão
se tornando dogmas no cinema nacional: o naturalismo e a catarse pacificadora.
Vejamos um de cada vez.
Exige-se hoje de um filme brasileiro que mostre "a favela como
ela é", "o Carandiru como ele é", ou "o
sertão como ele é".
Nada contra as obras que buscam essa veracidade documental. O problema
é o retorno à crença ingênua na arte como
reprodução fiel do mundo existente, que faz lembrar o
caso de alguém que, diante de uma pintura de Matisse, exclamou:
"Mas essa mulher tem a barriga verde!" Ao que o pintor respondeu:
"Isso não é uma mulher, meu senhor. É um quadro".
Pois bem. Já em suas primeiras imagens, tomadas por uma câmera
acoplada ao lado de um carro que entra na favela, fazendo os transeuntes
se desviarem e olharem para esse objeto invasor, o filme se apresenta
como uma intervenção na realidade, e não uma tentativa
de retrato servil.
O que se verá a seguir, dizem as imagens, será uma construção
cinematográfica, que tem aspectos do real -o morro do Alemão,
o prédio da MTV, a rua Augusta, automóveis, computadores
e gente de todas as tribos- como elementos de composição.
E a composição que Salles escolheu fazer é uma
comédia cruel, uma fábula sem moral sobre as fraturas
sociais e culturais brasileiras, conduzida por uma narrativa cartunesca,
no limite do verossímil, com personagens unidimensionais, à
beira da caricatura.
Mais que na injustiça social e na opressão de classes,
"Seja o que Deus Quiser" coloca seu foco nos descompassos
culturais e de linguagem, nos deslocamentos de sentido que ocorrem quando
algo ou alguém de um meio social ingressa em outra esfera -um
pouco como acontecia em "O Invasor", de Beto Brant.
A diferença é que Murilo Salles radicaliza o embaralhamento
de clichês. Ao sair da favela e adentrar o universo da "nite"
paulistana, o pacato e afável PQD (já em si um clichê
do sambista gente boa) se transforma à revelia no "negão
do comando vermelho".
Uma operação oportunista de marketing em torno da vitimização
de PQD é apresentada na TV como "campanha política
de solidariedade". O filme transborda sarcasmo e ironia.
Numa cena surpreendente e controvertida, uma senhora aparentemente indefesa
(Nicette Bruno, excelente) saca um 38 e mete bala no jovem que supostamente
tentava roubar seu carro. Noutra, uma perua que torra seu dinheiro no
bingo (Marília Pêra, impagável) regateia com sequestradores
o resgate do filho.
Passemos ao segundo dogma ignorado por "Seja o que Deus Quiser"
-e, de resto, também por "O Invasor"-, o da catarse.
A maioria dos novos filmes brasileiros centrados em problemas sociais
acaba por anestesiar as platéias por uma dessas duas vias (se
não por ambas): as lágrimas piedosas ou o banho de sangue.
Seja pela violência espetacular, seja pela purgação
sentimental da culpa, são filmes dos quais o espectador sai "de
alma lavada". De "Seja o que Deus Quiser", ela sai tão
suja quanto entrou.
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Seja o que Deus Quiser
Produção: Brasil, 2002
Direção: Murilo Salles
Com: Rocco Pitanga, Caio Junqueira, Marília Pêra,
Ludmila Rosa
Quando: a partir de hoje nos cines Jardim Sul, Lumière
e circuito
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