CRÍTICAS - 04  

A SUTILEZA É LÂMINA AFIADA

CARLOS ALBERTO MATTOS

O que Murilo Salles faz em "Faca de dois Gumes" é atravessar um campo minado. Uma história de adultério, seguido de vingança e diversos desdobramentos criminais, não chega a ser material original. Ainda, mais se envolve magnatas corruptos, detetives de tiro certeiro e malas escondidas em lockers de aeroporto. A travessia, no entanto, é absolutamente feliz — e eis um dos melhores filmes policiais já feitos no Brasil.

Desde a brilhante sequência de abertura, intrigando-nos com uma insólita câmera subjetiva no depósito de lixo, Murilo atesta sua compreensão da régua básica do bom policial; conquistar a cumplicidade do espectador. O roteiro de Leopoldo Serran, baseado em conto de Fernando Sabino, tem as virtudes da clareza e da evolução emocional verosímil, também indispensáveis para que esse mecanismo entre em ação.

Com tudo isso junto, "Faca de dois Gumes" cumpre condignamente sua função de filme comercial, tal como foi conhecido por encomenda do produtor francês (radicado no Brasil) Patrick Mojne para a "Série noir" da TV francesa — que já apresentou obras de Godard e Claud Chabrol. O filme funciona no conjunto (uma aplicação do thriller a certas vicissitudes da economia brasileira) e nos detalhes (cada etapa da trama tem o seu colorido próprio, gerando sempre um pouco mais de expectativa). Isto não é pouco.

Mas não basta dizer que Faca de Dois Gumes comprova a possibilidade de se praticar o gênero policial no cinema brasileiro. Existe alto mais. Em seu segundo filme, mesmo abdicando da postura autoral, Murilo Salles prossegue no trabalho de depuração iniciada em "Nunca fomos tão felizes" (provavelmente o filme mais representativo das mutações ideológicas e formais por que passou o cinema brasileiro nos anos 80, e um dos melhores da década). Murilo vem limpando o cinema brasileiro de suas gorduras retóricas, aprimorando a visualidade, valorizando o pormenor e a sutileza em detrimento do discurso e da síndrome da pretensão.

O caráter do advogado Jorge Bragança (Paulo José), por exemplo, é delineado muito mais por atitudes — a torcida pelo Botafogo, a colocação de apenas duas balas no revólver para o duplo assassinato, a frieza calculada diante do investigador — do que por textos de apresentação (embora alguns diálogos de referência ao Brasil pudessem ter ficado ainda mais concisos): Como Jorge, cada personagem tem a máscara certa sem configurar necessariamente um estereótipo. Em gênero tão maceteado como o policial, este é um exercício de sutileza de que poucos cineastas — brasileiros ou estrangeiros — seriam capazes.

Seja. por coincidência oportunas, seja por acréscimos intencionais, o fato é que "Faca de dois Gumes" assinala algumas constantes na obra de Murilo Salles: a relação trágica entre pai e filho, a presença dramática do vídeo, a cuidadosa metaforização da cenografia (o quarto da jovem segunda esposa de Jorge é o único cômodo de decoração moderna dentro da casa clássica), O cineasta adaptou sua gramática, mas não abriu mão da caligrafia pessoal.

A escrita cinematográfica de Murilo, sempre tecnicamente primorosa, contou agora com o requinte fotográfico de José Tadeu Ribeiro, uma trilha sonora expressiva de Victor Biglione (com belíssimas oscilações de clima) e Interpretações exatas de todo o elenco — com óbvio destaque para Paulo José o nosso Mastroianni que cresce com a passagem do tempo.

Uh Revista - 10 de Agosto de 1989