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Enfim, venho tentando colocar em suspensão os pequenos dogmas dramatúrgicos criados para deixar espectadores confortáveis. O Brasil é um grande paradoxo, um desafio que devora quem não ousa decifrá-lo, um absurdo avassalador, e assim tento refleti-lo em meu cinema. "Seja o que Deus quiser!" é uma expressão muito brasileira. Não sei se consigo traduzir em algo que de conta de sua riqueza: bateu um foda-se, uma situação de descontrole, uma fé no Divino como ordenador de coisas que não conseguimos ter à mão. A expressão reflete o país que "já era", que quisemos um dia, mas não foi possível, que perdeu o controle de seu futuro.Neste filme coloco de frente dois tipos fundamentais de "brasis" e me pergunto se haverá vencerdor? O primeiro é o pais da origem, negro e popular: o pais de PQD, músico do Morro do Alemão, espaço onde a música e o tráfico- por mais condenável que seja- são índices de afirmação de identidade e de sobrevivência econômica. Esses são signos do Rio de Janeiro. Como contraponto temos os personagens do Brasil que dá certo: Cacá, uma reporter de TV, seu irmão, Nando e a amiga Ruth. É um país que mora mais em São Paulo, com seu mundo clubber e sua música eletrônica. No confronto entre essas culturas, raças e raizes fomos construindo a narrativa dos não-heróis que tecem o Brasil possível. Este projeto é consequência direta e inevitável de meus filmes anteriores. É um filme sobre o Brasil hoje.
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