TEXTO DO DIRETOR

Pertenço à segunda geração do Cinema Novo. Por mais que tente camuflar minhas influências, as marcas dessa formação estão aí, sólidas.Fazer cinema pensando o Brasil críticamente, políticamente.
Mas fazer dessa crítica uma narrativa visual instigante, um cinema significante, que tenha uma marca própria: para mim o cinema é uma forma de pensamento, uma questão. Como fazê-lo pessoal e popular?

A resposta a essas questões venho procurando encontrar em meus filmes e o centro dessa procura é pensar uma narrativa de confrontos sem sobredeterminação, que apelidei de "dramaturgia da suspensão". Suspensão dos valores baseados em conceitos morais tipo bem e mal. Suspensão do juízo moral sobre as ações e os personagens. Suspensão dos critérios narrativos baseados no protagonista e no antagonista - espelho sutil do herói e do vilão. E, principalmente, suspensão da estética do "coitadinho", do "olha como nós somos pobrezinhos". Venho lutando contra esse "destino" de cinema dos "pobrezitos" que é demandado ao cineasta terceiromundista por tanto encantar os curadores, os críticos e o público desenvolvido dos festivais internacionais. Venho tentando fazer filmes que me interessam como brasileiro que não se acha "coitadinho", que tem orgulho de sua identidade baseada em códigos de valores que vão muto além do bem e do mal.

Enfim, venho tentando colocar em suspensão os pequenos dogmas dramatúrgicos criados para deixar espectadores confortáveis. O Brasil é um grande paradoxo, um desafio que devora quem não ousa decifrá-lo, um absurdo avassalador, e assim tento refleti-lo em meu cinema.

"Seja o que Deus quiser!" é uma expressão muito brasileira. Não sei se consigo traduzir em algo que de conta de sua riqueza: bateu um foda-se, uma situação de descontrole, uma fé no Divino como ordenador de coisas que não conseguimos ter à mão. A expressão reflete o país que "já era", que quisemos um dia, mas não foi possível, que perdeu o controle de seu futuro.Neste filme coloco de frente dois tipos fundamentais de "brasis" e me pergunto se haverá vencerdor? O primeiro é o pais da origem, negro e popular: o pais de PQD, músico do Morro do Alemão, espaço onde a música e o tráfico- por mais condenável que seja- são índices de afirmação de identidade e de sobrevivência econômica. Esses são signos do Rio de Janeiro. Como contraponto temos os personagens do Brasil que dá certo: Cacá, uma reporter de TV, seu irmão, Nando e a amiga Ruth. É um país que mora mais em São Paulo, com seu mundo clubber e sua música eletrônica.

No confronto entre essas culturas, raças e raizes fomos construindo a narrativa dos não-heróis que tecem o Brasil possível. Este projeto é consequência direta e inevitável de meus filmes anteriores. É um filme sobre o Brasil hoje.


Murilo Salles