CRÍTICAS - 06 
SUSPENSE NO AR
Um bom policial nacional em Faca de Dois Gumes
CARLOS HEE
O cinema brasileiro não tem tradição em filmes policiais. Nas raras vezes em que os diretores se aventuram pelo gênero, os resultados são quase sempre cópias capengas e confusas dos equivalentes americanos. Não é o que acontece com Faca de Dois Gumes (Brasil, 1989), do diretor carioca Murilo Salles, que tem estréia marcada para esta quinta-feira no Rio de Janeiro. Com seu primeiro longa-metragem, Nunca Fomos Tão Felizes, de 1984, Salles surgiu como uma boa promessa. Neste segundo filme, ele confirma seu talento. Lidando com uma história complexa. com muitos personagens e mudanças súbitas de rumo, o diretor mantém o suspense e prende a atenção do público.
Baseado no conto homônimo de Fernando Sabino, Faca de Dois Gumes narra a história de Jorge Bragança (Paulo José), um advogado cinquentão que sofre um golpe ao descobrir que sua segunda mulher, Vera Lúcia (Ursula Canto), vinte anos mais jovem, lhe é infiel. Certo dia ele intercepta uma ligação telefônica e escuta Vera Lúcia trocando declarações apaixonadas com Marco Aurélio (Flávio Galvão), seu sócio e melhor amigo. Ouve mais: "Ele é um velho, e tenho nojo dele", diz a mulher, referindo-se ao marido. Chocado e confuso, Jorge arquiteta. para assassinar os amantes, o que pretende ser o crime perfeito.
DEDUÇÃO - O surpreendente em Faca de Dois Gumes é que o crime passional é apenas o ponto de partida para uma trama policial requintada, envolvendo seqüestro, política, troca de influências e corrupção. A partir de determinado momento, o personagem passa de algoz a vítima, permitindo que Salles construa uma trama cheia de detalhes e cenas que impedem qualquer dedução do público. A solução só é apresentada nos minutos finais.
Além do roteiro bem estruturado, Faca de Dois Gumes conta com outro ponto favorável - a atuação de Paulo José. Poucos atores brasileiros conseguem atuar no cinema com tanta naturalidade e convicção como ele. Sua interpretação não é calcada no naturalismo fácil — característico de atores que confundem cinema com televisão — nem na interpretação teatral. Paulo José se vale de pequenas nuances e de uma cumplicidade impressionante com a câmara. Sua construção de Jorge Bragança é calcada na destruição gradual do personagem, tanto física como psicologicamente, sem artificialismo ou exagero. Faca de Dois Gumes recebeu quatro prêmios no Festival de Gramado deste ano — inclusive o de melhor direção. Assim como o recente Festa, de Ugo Giorgetti., ele prova que, para se fazer bom cinema, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, são necessários, para começar, dois pré-requisitos básicos: uma boa idéia e algum talento.
Veja - 9/8/89
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