CRÍTICAS - 05 
ATÉ QUE ENFIM UM BOM FILME
SIDNEY GARAMBONE
Dê uma nova chance ao cinema brasileiro, o Murilo Salles merece. Estréia quinta-feira no Leblon 2, Palácio 2, Tijuca 1 e Niterói 1 o segundo longa metragem do cineasta de Nunca fomos tão felizes, Faca de dois gumes, baseado num conto do escritor Fernando Sabino, resgata a dignidade do cinema brasileiro e faz as pazes com o público descrente com o celulóide nacional. É um filme extremamente bem feito, do gênero que prende o espectador na cadeira, com os olhos sempre vidrados na tela. Não é a toa que Faca de dois gumes conquistou quatro premiações no último Festival de Gramado (Direção, Cenografia, Fotografia e Edição de Som). Mas foi pouco, foi muito pouco. Murilo Salles é, sem dúvida, o melhor cineasta em atividade no país.
Em Faca de dois gumes, Paulo José interpreta densamente o advogado Jorge Bragança, que ao descobrir o romance entre sua esposa Vera (Úrsula Canto) e seu melhor amigo e sócio, Marco Aurélio (Flávio Galvão), fuzila o casal. O crime dispara uma aventura policial instigante que leva o espectador a brincar de detetive e a resgatar seu poder de dedução. "Faca é uma avalanche de informações, aconselho a prestarem atenção em tudo desde o começo", sugere Murilo.
Com um orçamento de 400 mil dólares, cifra relativamente baixa se comparada com os 5 milhões de dólares consumidos na produção de Quarup, Faca dá também suas espetadas na. relação pai e filho. "Como em Nunca fomos tão felizes, meu primeiro longa metragem, apresento um pouco desse conflito permanente em nossas vidas", diz Murilo. Fotógrafo e diretor de publicidade respeitadíssimo, Murilo Salles não esconde de ninguém que este, é o seu ganha-pão. "É a publicidade que paga meu aluguel na Urca e os móveis onde sento." Mas os maiores elogios ele recebe na condição de cineasta. "Murilo tem uma qualidade fundamental em todo artista que é a obsessão pelo detalhe", lembra o colega Arnaldo Jabor, que fez Eu te amo com a direção de fotografia de Murilo Salles.
Elogios a parte, o cineasta tem um receio quanto à performance de Faca de dois gumes: a violência do filme. Que não á gratuita, mas pontua toda a ação. "Tenho um certo medo da reação das pessoas, mas é o dia-a-dia a que já estamos acostumados chegando na classe dominante. Eu até acho que atenuei a violência que comanda a ação fora das telas." É um filme bom e honesto, que dá de l0 nas baboseiras policiais americanas. Para se pagar na bilheteria, Faca vai precisar de 750 mil brasileiros e brasileiras passando pelas roletas dos cinemas. Enfim, uma oportunidade de se prestigiar o que há de bom no cinema brasileiro. Ou você vai querer continuar dando murro em ponta de faca?
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