CRÍTICAS - 01 
DIRETOR MUDA CINEMA POLICIAL BRASILEIRO
LUIS FRANCISCO CARVALHO FILHO
"Faca de Dois Gumes" é um excelente filme policial. Produção impecável, ritmo fluente, mantém um clima de suspense que não se perde ao longo de 97 minutos. Com um elenco de bom nível, o diretor Murilo Salles, 38, autor do introspectivo e correto "Nunca Fomos Tão Felizes" (1984), realizou um dos melhores trabalhos do cinema brasileiro este ano.
Um dos méritos de "Faca de Dois Gumes" é sua verosimilhança. Os personagens são descritos com realismo. Ninguém é nem a encarnação do mal nem do bem. São pessoas que se encontram todos os dias pelo país. Inclusive os policiais, na opinião deles mesmos. A Folha levou Abraão José Kfouri Filho, 49, presidente da Associação dos Delegados de Policia de São Paulo, e Albino Costa Neto, 53, diretor da entidade, para uma sessão especial de "Faca de Dois Gumes". Os dois gostaram do filme como espetáculo e elogiaram a representação do trabalho policial feita nele.
Os policiais da fita fogem do lugar-comum desse tipo de personagem no cinema por decisão do diretor. "Estou farto desses estereótipos em filme brasileiro em que os policiais são suarentos, sem dentes, cuspindo e dando bofetões. É claro que é quase sempre assim. Mas não é só assim", diz Murilo Salles.
Não que o detetive Fontana e muito menos o delegado Veloso, os personagens do filme, sejam santinhos. O delegado arruma um pivete para assumir um crime cometido por um milionário e depois manda eliminá-lo. O investigador empresta um revólver para um réu confesso de homicidas cometer outro assassinato. Mas nem Fontana (José de Abreu) nem Veloso (Paulo Goulart) são monstros desumanos.
É claro que os policiais de verdade Kfouri e Costa Neto dizem que as duas ações criminosas cometidas por seus colegas na tela são justificáveis sob o argumento da dramaticidade fictícia mas não acontecem com frequência na vida real. "Um delegado com 30 anos de carreira não iria arriscar tudo para plantar um criminoso falso e depois mandar três subalternos executá-los", argumenta Kfouri Filho.
Mas a não ser por alguns detalhes (a cena de reconstituição do crime não reproduz com fidelidade as posições em que os corpos das vitimas caíram na cama, por exemplo), Kfouri e Costa Neto acham que o trabalho policial foi retratado com fidelidade em "Faca de Dois Gumes".
Eles destacam com ênfase o personagem do detetive (designação de investigador na polícia no Rio). Ele é obstinado, não se convence dos álibis perfeitos que o advogado milionário Jorge Bragança (Paulo José, numa interpretação contida mas primorosa) tem para se livrar das suspeitas do homicídio duplo de sua mulher Vera Lúcia (Ursula Carito, bonita mas discreta) e seu sócio e melhor amigo Marco Aurélio (Flávio Galvão, num papel menor), que eram amantes.
Fontana usa técnicas que Kfouri Filho considera corretas para investigar o caso. Não acredita no que parece óbvio. Usa a tática de justificar a ação do criminoso como algo moralmente aceitável, eficaz em casos de criminosos não contumazes como Jorge. Cria um vínculo emocional com o suspeito através de interrogatórios informais constantes. Explora o narcisismo intelectual do autor de um crime considerado como perfeito que, ainda que de forma inconsciente, deixa algumas evidências para polícia com o intuito de tornar o duelo com o antagonista mais excitante.
No filme, a desconfiança de Fontana é descrita pelo delegado como "intuição". Kfouri Filho prefere usar o termo "experiência" para definir esse ceticismo que ele considera saudável ao profissional de política. A observação do perfil psicológico do suspeito (no caso, um homem sempre discreto) e a adoção de um comportamento muito diverso para realçar seus álibis, por exemplo, pode levar um investigador a duvidar da versão do investigado.
O desfecho, do inteligente enredo se dá de forma um pouco abrupta. A participação do sogro de Marco Aurélio, o multimilionário Dr. Amado (José Lewgoy, sempre eficiente), tem que ser sutil ao longo da trama para provocar a surpresa. Mas ela é tão discreta que pode prejudicar o entendimento.
Mas nem esse nem outros detalhes de inconsistência na formação de alguns personagens (como a de Sônia, mulher de Marco Aurélio, vivido por Marieta Severo, de quem não se vê as reações ao descobrir que o marido foi assassinado por seu melhor amigo) desqualificam o trabalho inteligente, profissional e realista de Murilo Salles nesse filme.
(Jornalista e diretor de Planejamento da empresa Folha da Manhã S/A, que edita a Folha) - Folha de SP - 15/11/89
|