CRÍTICAS - 02 
FACA DE DOIS GUMES - GOL DO CINEMA NACIONAL
CARLOS FONSECA
O cinema brasileiro, tão atacado por muitos, tem com "Faca de dois gumes", de Murilo Salles, razões de sobra para se orgulhar. É um produto tão bom quanto qualquer outro com as mesmas ambições realizado nos grandes centros. Possui boa história, excelente roteiro, bons atores, recursos técnicos e de produção, e uma direção afinadíssima, que sabe manter a narrativa com permanente interesse.
Baseado em um dos contos de trilogia escrita por Fernando Sabino ("O bom ladrão" e "Martini seco", os outros dois), "A faca de dois gumes" (que dá titulo ao trio) chega ao cinema em adaptação muito bem feita por Leopoldo Serran (um dos nossos melhores roteiristas), com a colaboração de Alcione Araújo e do próprio diretor Murilo Salles. É um thriller policial — "um drama psicológico", na definição de Fernando Sabino. Desses que prendem a atenção do espectador da primeira à última sequência.
Os roteiristas do filme utilizam do texto original o arcabouço inicial, a trama principal, que ganha maiores aprofundamentos e outras tramas paralelas que, em vez de diluir seu impacto, o tornam ainda mais denso, mais compacto, fascinante. Certamente, essa é uma das melhores tramas já engendradas pelo cinema brasileiro.
Talento raro em termos de narrativa e criatividade, o diretor Murilo Salles não só ratifica as suas possibilidades, demonstradas em seu primeiro filme, "Nunca fomos tão felizes" (1984), como demonstra uma descontração surpreendente na orquestração afinada de todos os elementos que compõem um filme.
Um crime passional é cometido com requintes de perfeição, envolvendo figurões da sociedade e da política. Jogando habilmente com fatos e metáforas, sobre o poder, a corrupção, problemas existenciais, conflitos humanos, roteiro e direção compõem meticuloso e atraente microcosmo, em rítmo de suspense no melhor estilo tradicional do thriller.
Não se preocupando com citações cinéfilas, mostrando um estilo próprio, Murilo Salles se entrega por inteiro a uma faina perfeccionista. Costura as tramas cuidadosamente, faz sua mise-en-scéne com carinho, visualmente atraente. Não descuida do perfil psicológico dos personagens. que são variados e interessantes. Aciona com vigor todos os elementos ficcionais da narrativa (amor, intriga, mistério), renovando-os a cada instante.
Como Jorge, o personagem central, Paulo José é o principal suporte dramático, com um desempenho admirável, rico em nuanças intimistas. Bom também todo o resto do elenco. Ainda a destacar: a fotografia de José Tadeu Ribeiro, a partitura musical de Victor Biglione, a montagem de lsabelle Rathery, a cenografia de Maria Helena Salles, os figurinos de Bárbara Mendonça.
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