CRÍTICAS - 03  

O FILME EM QUESTÃO: "FACA DE DOIS GUMES"

Bem afiada
WILSON CUNHA

Em torno de uma mesa há uma celebração - verdadeira ação entre amigos íntimos e familiares. São poucas pessoas. Mas preste atenção no jogo entre elas porque, desde o ínicio, Faca de Gois Gumes estabelece a teoria dos confrontos camuflados. Pois não se está interessado tanto em saber quem matou e por que - afinal o assassinato é explícito - mas em fazer com que as teias da trama sejam desfiadas aos poucos. E, com isso, vá enredando cada vez mais as personagens. Em torno daquela mesa do início estão todas as personagens, assassinos e vítimas. Para que seu filme atingisse o ponto ideal de eficiência, Murilo Salles precisava de um elenco bem sintonizado. E encontrou. Flavio Galvão fica tão canalha quanto exigia seu garanhãozinho inescrupuloso; Paulo José vive com extrema sensibilidade o advogado preparado para cometer o crime perfeito, mas completamente desarmado para ser o homem errado; Marieta Severo fala em pagar US$ 5 milhões tão tranqüilamente como se inquietava com a filha suburbana em Com licença eu vou a luta - eta Marieta danada; enquanto José Lewgoy esbanja personalidade. Uma faca bem afiada esta que Murilo nos oferece.


Policial de autor
DAVID FRANÇA MENDES

Faca de dois gumes, segundo longa-metragem de Murilo Salles, é uma prova de que se pode dialogar com a tradição cinematográfica, com direito a citações de grandes filmes, filiar-se a um gênero do cinema clássico, o policial, e tudo isso não ser mais que secundário Faca de dois gumes não foi "produzido originariamente em preto e branco", seus personagens não vestem sobretudos nem andam envoltos por nebulosas fumacinhas. Mas é rigorosamente um filme policial na tradição do Primeiro Mundo. Muito filme moderninho se daria por satisfeito simplesmente para alcançar este padrão. Em Faca, isso é só a base. Murilo Salles aproveitou uma história que beira o clichê para realizar um legítimo filme de autor: construiu um personagem central forte, interpretado com rigor por Paulo José e contou sua história numa narrativa em que, tanto quanto o assassino, a imagem é personagem. Da Imagem de abertura, antológica, à seqüência final — citação de um grande policial dos anos 70, descubra qual — a câmera em Faca de dota gumes é uma das mais originais do cinema brasileiro. Inteligência não rima com chatice. O estilo depurado não impede que Faca, como bom policial, prenda a atenção do início ao fim.

Faca de um gume só
Susana Schild

Embora os clichês do Film-noir circulem com facilidade por curtas e longas recentes, Murilo Salles armou seu thrtller sem concessão às revisões moderninhas, mas apostando na essência do gênero — trama e personagens em narrativa densa, e ainda se dando ao luxo de abertura para vários tipos de leitura. Na primeira, um "crime de autor" tem como pano de fundo negociatas sórdidas em uma sociedade corrupta até à medula. E qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência. Já uma segunda leitura será melhor aproveitada por quem viu Nunca fomos tão felizes, filme de estréia do diretor. Nos dois, o desfecho da trama se apóia em fio frágil abordado com sensibilidade: as dificuldades de contato entre pai e filho, que pouco se conhecem, raramente se tocam, cada um percorrendo um gume da faca. No primeiro filme, o pai só se torna real para o filho através de uma foto, enquanto em Faca, o pai só tem plena consciência da existência do filho através de uma fita de vídeo. O outro, curiosamente, só se torna real através de uma representação. Ao vivo e a cores, mostra Murilo, o contato entro pai e filho não vale. Ou não acontece. Apesar do titulo, Faca de dois gumes tem um lado só e afiadíssimo, delimitando os contornos de um policial impecável e forte tom autoral. No elenco também afiado, destaca-se Paulo José, em interpretação admirável.